quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Friedrich Nietzsche - Assim falou Zaratustra




















Do caminho do criador

- Queres meu irmão, ir para o isolamento? Queres procurar o caminho que leva a ti próprio? Não te decidas por enquanto e presta atenção ao que te digo.

- 'Aquele que procura facilmente se perde. Todo o isolamento é culpado': assim fala o rebanho. E durante muito tempo fizeste parte do rebanho.

- A voz do rebanho há de ressoar ainda em ti. E, quando disseres: 'A minha consciência nada tem de comum com a vossa', isso será uma lamentação e um sofrimento.

- Repara, a consciência comum gera este mesmo sofrimento: e o último reflexo desta consciência causa ainda dor na tua aflição.

- Mas queres seguir o caminho da tua aflição, que é o caminho de ti próprio? Mostra-me então que tens esse direito e essa força!

- És uma nova força e um novo direito? Um primeiro movimento? Uma roda que se move por si mesma? Podes até obrigar as estrelas à girar a tua volta?

- Ah!, quanta concupiscência pelas alturas! Quantos espasmos dos ambiciosos! Mostra-me que não estás nem entre os concupiscentes nem entre os ambiciosos!

- Ah!, tantos pensamentos grandiosos que só agem como um fole: enchem e aumentam o vazio.

- Dizes-te livre? Quero saber qual é o teu pensamento soberano, e não que sacudiste de ti um jugo.

- És um daqueles a quem foi permitido escapar a um jogo? Muitos perderam o seu ultimo valor quando rejeitaram a sua servidão.

- Livre de quê? Que importa a Zaratustra! Mas o teu olhar deve dizer-te claramente: livre para quê?

- Podes acaso dar-te a ti próprio o teu bem e o teu mal e suspender a tua vontade por acima de ti, como se fosse uma lei? Podes acaso ser o teu próprio juiz e o vingador da tua lei?

- É terrível ficar sozinho com o juiz e o vingador da sua própria lei. Da mesma forma que uma estrela atirada no espaço vazio e como o sopro gelado da solidão.

- Hoje ainda sofres com a multidão, tu, que és um solitário: hoje ainda a tua coragem e as tuas esperanças estão inteiras.

- Mas um dia a solidão há-de fatigar-te, um dia o teu orgulho há-de dobrar-se e a tua coragem há-de ranger os dentes. Um dia hás-de gritar: 'Estou só!'

- Um dia deixarás de ver a tua altura e a tua baixeza estará muito próxima; até o que é sublime em ti te fará medo, como um fantasma. Um dia gritarás: "Tudo é falso!"

- Há sentimentos que querem matar o solitário; se o não conseguem, têm então de morrer eles próprios! Mas serás tu capaz de ser um assassino?

- Conheces já a palavra "desprezo", meu irmão? É o tormento da sua equidade que te obriga a ser justo para com aqueles mesmos que te desprezam?

- Obrigas muitas pessoas a mudar de opinião acerca de ti; e isso vai ter más consequências para ti. Aproximaste-te deles, mas continuaste o teu caminho; nunca te hão-de perdoar.

- Tu passas para além deles: mas quanto mais te elevas mais pequeno pareces ao olhar do invejoso. Aquele que voa é aquele que mais se odeia.

- Como podíeis ser justos para comigo!, deves dizer, "Escolhi a vossa injustiça como a parte que me é devida".

- Atiram com injustiça e com laga ao rosto do solitário: mas, meu irmão, se queres ser uma estrela, não deves de deixar de brilhar para eles!

- E toma cuidado com os bons e os justos! Crucificam de boa vontade aqueles que para si inventam a sua própria virtude – odeiam o solitário.

- Toma muito cuidado também com a santa simplicidade! Tudo o que não é simples é, aos seus olhos, ímpio. Também ela utiliza de boa vontade a fogueira.

- E toma cuidado com os impulsos do teu amor! O solitário estende depressa de mais a mão àquele que encontra.

- Há certos homens a quem não deves estender a mão, mas a pata: e quero que a tua pata tenha garras.

- Mas o pior inimigo que podes encontrar serás sempre tu: és tu próprio que te espreitas nas cavernas e nas florestas.

- Solitário, segues o caminho que leva a ti próprio! E o teu caminho passa diante de ti e dos teus sete demônios!

- Serás para ti próprio um herético e uma feiticeira, um vidente e um louco, um ímpio e um criminoso.

- É preciso que queiras queimar-te na tua própria fogueira: como queres renovar-te se não te reduziste primeiro a cinzas?

- Solitário, segues o caminho do criador: queres tornar-te um deus com os teus sete demônios.

- Solitário, segues o caminho daquele que ama: és tu aquele que amas e por essa razão te desprezas como só os que amam sabem desprezar.

- Aquele que ama quer criar porque despreza! Que saberá do amor aquele que não devesse desprezar precisamente aquilo que amava?

- Vai para o teu isolamento, meu irmão, com o teu amor e a tua criação, e mais tarde a justiça te seguirá, arrastando as pernas.

- Vai para o teu isolamento, meu irmão, com as tuas lágrimas. Amo aquele que quer criar acima de si próprio e desse modo caminha para a sua perdição.

Assim falava Zaratustra

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