sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Federico García Lorca - 1





Paisagem com duas tumbas e um cão assírio

Amigo,
levanta para que ouças latir
o cão assírio.
As três ninfas do câncer estiveram dançando, filho meu.
Trouxeram umas montanhas de lacre rubro
e uns lençóis duros onde estava o câncer dormido.
O cavalo tinha um olho no pescoço
E a lua estava no céu tão frio
que teve de desgarrar-se seu monte de Vénus
e afogar em sangue e cinza os cemitérios antigos.

Amigo,
desperta, que os montes ainda não espiram
e as ervas de meu coração estão em outro lugar.
Não importa que estejas repleto de água do mar.
Eu amei muito tempo um menino
que tinha cem anos dentro de um punhal.

Desperta. Cala. Escuta. Incorpora-te um pouco.
O uivo
é uma longa língua arroxeada de deixa
formigas de espanto e licor de lírios.
Já vem até a rocha. Não alongues tuas raízes!
Aproxima-te. Geme. Não soluces em sonhos, amigo.

Amigo!
Levanta para que ouças uivar
o cão assírio.




De outra maneira

A fogueira expõe no campo da tarde
umas lanças de cervo enfurecido.
Todo o vale se estende. Por seus lombos,
caracoleia o vento suave.

O ar cristaliza sob a névoa.
- olho de gato triste e amarelo-.
Eu, em meus olhos, passo pelos ramos.
Os amos passeiam pelo rio.

Chegam minhas coisas essenciais.
São estribilhos de estribilhos.
Entre os juncos e a baixa tarde,
que estranho que me chame Federico!




Alma ausente

Não te conhece o touro nem a figueira,
nem cavalos nem formigas de tua casa.
Não te conhece o menino nem a tarde
porque já morreste para sempre.

Não te conhece o lombo da pedra,
Nem o raso negro onde te destroças.
Não te conhece a lembrança muda
Porque já morreste para sempre.

O outono virá com suas conchas,
uva de névoa e montes agrupados,
mas ninguém virá olhar teus olhos
porque já morreste para sempre.

Porque já morreste para sempre,
como todos os mortos da Terra,
como todos os mortos esquecidos
em um monte de cães apagados.

Ninguém te reconhece. Não. Mas eu te louvo.
Eu canto desde já teu perfil e tua graça.
A madures insigne de teu conhecimento.
Tua apetência de morte e o gosto de sua boca.
A tristeza que teve tua valente alegria.

Tardará muito tempo em nascer, se é que nasce,
um andaluz tão claro, tão pleno de ventura.
Eu canto sua elegância com palavras que gemem
e relembro uma brisa triste pelas oliveiras.




Paisagem da multidão que urina (nocturno de Battery Place)

Eles ficaram sós:
esperavam a velocidade das últimas bicicletas.
Elas ficaram sós:
aguardavam a morte de uma criança no veleiro japonês.
Eles, elas, ficaram sós,
a sonhar com os bicos que os pássaros abrem na agonia,
com o guarda-sol agudo que fura
o sapo esmagado ainda há pouco,
sob um silêncio de mil orelhas,
e bocas de água diminutas
nos desfiladeiros que resistem
ao feroz ataque da lua.
Chorava, a criança do veleiro, e os corações partiram-se
angustiados pelo testemunho e a vigília de todas as coisas
e porque assim mesmo nomes escuros gritavam
no chão celeste de negras pegadas,
gritavam salivas e rádios de níquel.
Não importa se a criança deixa de chorar quando lhe espetam o
nem a derrota da brisa na corola do algodão, [último alfinete,
pois há um mundo da morte com definitivos marinheiros
que hâo-de subir aos arcos e congelá-los por detrás das árvores.
É inútil procurar o cotovelo
onde a noite se esquece da viagem
e espreitar um silêncio que não tenha
fatos rotos e cascas e pranto,
pois basta o banquete da aranha, minúsculo,
para desfazer o equilíbrio de todo o céu.
Para o gemido do veleiro Japonês não há remédio,
nem para esta gente oculta que tropeça nas esquinas.
Para unir as raízes num só ponto o campo morde o seu próprio rabo
e o novelo vai procurar na erva a sua ânsia insatisfeita de longitude.
A lua! Os polícias! As sereias dos transatlânticos!
Semblante de crina, de fumo; anémonas e luvas de borracha.
Tudo está roto nesta noite
aberta de pernas em cima dos terraços.
Tudo está roto por esses canos mornos
de uma terrível e silenciosa fonte.
Ó gente! Ó mulherzinhas! ó soldados!
Temos de viajar nos olhos dos idiotas,
campos livres onde silvam mansas cobras deslumbradas,
paisagens cheias de sepulcros que produzem maçãs fresquíssimas,
para nos chegar a exorbitante luz
que os ricos temem por detrás das suas lupas,
o cheiro de um só corpo com vertente dupla de lírio e rata,
e queimar-se então esta gente que pode urinar à volta de um gemido
ou nos cristais que explicam as ondas nunca repetidas.





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terça-feira, 18 de outubro de 2011

O acordeão policromático-sinusoidal e as tentativas de uma louca para o dominar - II



Nome:"O acordeão policromático-sinusoidal e as tentativas de uma louca para o dominar"
Duração: 11m e 52seg
Ano: 2009 / 2011
Suporte: 16mm a preto & branco
Realização: Celestino Monteiro
Actores: Valentina Carro Padin
Música: Zé Pedro
Produtora: Os meus são melhores que os vossos


segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O acordeão policromático-sinusoidal e as tentativas de uma louca para o dominar - I










Depois da apresentação do meu segundo filme em suporte 16mm, agora será a vez do meu primeiro filme.
A estreia vai ser no dia 28 de Outubro (sexta-feira) , ás 22h30, no Auditório da E.S.A.P. (Escola Superior Artística do Porto).


Site:
E.S.A.P.


Poema de Álvaro de Campos



TABACARIA


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantámo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu.



Dada - 12

A 9ª Arte - VIII

Milo Manara


H.P. y Giuseppe Bergman














quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Mensagem - 3

Brasão - Os Castelos - 2.7 - D. Philippa de Lencastre




Que enigma havia em teu seio
Que só génios concebia?
Que archanjo teus sonhos veio
Vellar, maternos, um dia?

Volve a nós teu rosto sério,
Princeza do Santo Gral,
Humano ventre do Império,
Madrinha de Portugal!